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02/04/2025

Projecteis, alcance e... CPmíssil

Há perguntas cuja resposta pode ser simples ou complicada, dependendo de como foi feita e das definições que a pessoa tem.

Em 1994/95, no último ano do meu secundário, aprendi o movimento de projecteis.
E com ele, escrevi um dos meus primeiros jogos de calculadora, o CPMíssil.


A imagem é umuma captura de ecrã do CPmíssíl 3.0 de Novembro de 1999 para calculadoras Casio cfx-9950G, mas as versões 1.0 e 2.0 foram escritas para uma máquina com apenas 400 bytes de memória, a Casio fx-6300G... em 1994.
Aquela "vel vento" foi uma variável aleatória que juntei na versão 3

[ CPmissil não foi o meu primeiro jogo, há muitas formas extracurriculares de expor e reter assuntos: não hostilizem a tecnologia... ]

Era uma espécie de "Angry birds" com tanques.
A ideia para o jogo ocorreu-me enquanto estava a estudar, como forma de testar os meus conhecimentos, melhor do que andar meramente a resolver exercícios.
Funcionar, funcionou!
Acabei o secundário com 20 a Física, e hoje em dia ainda domino vários assuntos da àrea...

Não vou disponibilizar o jogo -ainda corre nas calculadoras actuais- embora, vários ex-alunos meus tenham ficado com uma cópia, oferta minha.

Lembrei-me disto porque recentemente vi o código das versões 1.0 e 2.0, e ainda vi uma pergunta num grupo do facebook :

Num lançamento obliquo, se fixarmos uma velocidade, qual o ângulo que permite obter um alcance máximo?

O "alcance" é definido como sendo a distância, na horizontal, percorrida pelo projéctil.
(Na imagem, a linha verde é o chão... se o chão fosse horizontal, o alcance seria a distância entre os dois tanques)

Se não houver vento, nem resistência do ar (e...), a resposta correcta é 45 graus. Porquê?

A equação do movimento do projéctil (o míssil do meu jogo) é {x=x0+(v0cosθ0)ty=y0+(v0senθ0)t12gt2
onde (x0,y0) são as coordenadas do local de lançamento (o meu tanque da esquerda), v0 é o módulo da velocidade de lançamento (ou velocidade inicial), e θ0 é o tal ângulo (deixei um indice zero porque é o ângulo inicial que o vector velocidade faz com a direcção do semi-eixo positivo das abcissas), g é o módulo da aceleração da gravidade e t é o tempo desde o momento de lançamento, e naturalmente está no intervalo [0,tmax] onde tmax, chamado "tempo de voo", é o instante quando o projéctil atinge a mesma altura que tinha quando foi lançado.
Para facilitar os cálculos, e sem perder qualquer generalidade vou considerar que o ponto de lançamento (onde está o primeiro tanque) é a origem das coordenadas, ou seja, é o ponto (0,0).
Assim ficamos com {x=(v0cosθ0)ty=(v0senθ0)t12gt2
no ponto onde o projectil atinge o solo ( ou o outro tanque, se lá estiver ) temos (x,y)=(xmax,0)
aquele xmax é justamente o tal alcance. Então {xmax=(v0cosθ0)tmax0=(v0senθ0)tmax12gt2max
Como tmax>0 então{xmax=2v20cosθ0senθ0g=v20sen(2θ0)gtmax=2v0senθ0g
xmax é máximo quando sen(2θ0)=1 como, dadas as limitações geométricas do problema, θ0 tem de estar entre 00 e 900 então 2θ0=900 logo θ0=450.
O olho mais atento notará que a equação do movimento de um projectil, "pode descrever" uma parábola (aquela mesma parábola do texto das cónicas). É "pode descever" porque se θ0 for 900, aquilo parametriza outra coisa. Nem é preciso fazer contas para dizer o quê...
Claro que do ponto de vista físico podem se fazer outras deduções, que para alguém de Matemática não passam de curiosidades, como por exemplo, a altura máxima, o tempo de subida, a equação da trajectória... etc. São apenas contas. E simples.
Sobre o jogo... no máximo gravo um vídeo e ponho no youtube.
Quem tiver curiosidade que escreva um.
Eu ainda consigo escrevê-lo e pô-lo a correr... no Geogebra!

27/03/2025

O raio da circunferência circunscrita ao triângulo

"O que se aprende na juventude dura a vida inteira."(Francisco de Quevedo)


Este problema também veio do facebook, da página "Mathematics is poetry".
Tem uma resolução bastante simples, dependendo da matemática que se sabe, e várias outras mais trabalhosas.

Esta ocorreu-me porque eu conheço

e
Se r for o raio daquela circunferência, a,b,c os lados do triângulo e A,B,C os vértices opostos aos lados correspondentemente, temos que 2r=csenC
(utilizando o abuso de linguagem de identificar a medida do ângulo interno como o vértice correspondente) e que a área do triângulo é AΔ=12absenC logo r=c2senC=c2×2AΔab=abc4AΔ
Assim sendo s=9+10+112=10+202=5+10=15
e então r=9×10×11415(159)(1510)(1511)=9×10×11415×6×5×4=
=9×5×1123×5×2×3×5×22=9×5×11232×52×2×22=9×5×112×5×3×22=3342=3328

Esta resolução, também vai com dedicatórias. Á professora Celina Andrade que me aturou no secundário, e me ensinou a lei dos senos, ao professor Orlando Freitas que no 9º ano me ensinou as relações entre arcos e ângulos numa circunferência e ao professor Egídio Pereira que me deu a conhecer aquela demonstração da lei dos senos.

20/03/2025

Cónicas - Parte 1 : Três versões diferentes

Os próximos textos sobre cónicas vão ter dedicatórias.
Vou dedicar este post a duas pessoas. Ao meu pai (ontem foi dia do pai), e à professora Celina Andrade que em 1994/95 me apresentou as cónicas no ensino secundário.
Como consequência do texto P o primo do π decidi escrever uma sequência de alguns posts dedicados a cónicas.

Neste primeiro texto vou apenas definir cónicas, de três formas diferentes.
Nesta sequência de textos não vou demonstrar algumas afirmações, não porque seja difícil, mas porque já tive nas mãos fichas de exercícios de algumas faculdades que propõem essas demonstrações como exercícios.
Não estou interessado que que este blog seja uma fonte de copianço, por isso, neste post, tudo o que eu não provar, deixo como exercício para o leitor interessado.
Curiosamentte, eu aprendi e foram-me feitas as demonstrações de muitas destas coisas em aulas quando eu estava no secundário.
Se calhar ainda escrevo as provas em LATEX e guardo algures.

No final de cada texto haverá uma lista de exercícios, com soluções mas sem resoluções (pelo menos inicialmente). A ideia é resolvê-los recorrendo apenas ao conteúdo do texto.

Versão 1: Secções de uma superfície cónica.

Com um título destes se calhar eu devia definir rigorosamente o que é uma superfície cónica, mas não o vou fazer.

A partir desta animação, quem estiver mesmo interessado consegue escrever uma definição rigorosa de superfície cónica.
Ou seja, é uma coisa destas:

Quem se atrever a utilizar um desenho/imagem como "definição rigorosa", está convidado a deixar de ler este texto e a não voltar...

Uma parábola é a curva que se obtém quando se intersecta um plano estritamente paralelo a uma geratriz (qualquer recta inscrita na superfície cónica) com a superfície cónica.
Uma elipse é a curva que se obtém quando se intersecta um plano não paralelo a uma geratriz (qualquer recta inscrita na superfície cónica) com apenas uma das folhas da superfície cónica.
(Assim, nesta definição, uma circunferência é um caso particular de uma elipse)


Se o plano intercectar as duas folhas (e não o fizer numa recta) obtemos uma hipérbole.

(As imagens de fundo cinzento vieram da Wikipedia, mas são facilmente geravei no Geogebra, no Wolfram Mathematica, etc...)

Versão 2: Propriedades focais.

Elipse



Elipse é o conjunto dos pontos de um plano tais que é constante a soma das suas distancias a dois pontos fixos, desse plano, chamados focos.
Na animação ¯PF1+¯PF2=constante.

Hipérbole


Hipérbole é o conjunto dos pontos de um plano tais que é constante a diferença em módulo das suas diferenças a dois pontos fixos, desse plano, chamados focos
Essa diferença é inferior à distância entre os focos.
Na animação |¯PF1¯PF2|=constante.

Parábola

Considere-se uma recta d e um ponto F exterior à recta.
Ao conjunto dos pontos P do plano que são equidistantes do ponto F e da recta d chamamos parábola. O ponto F chama-se foco e a recta d chama-se directriz.

Versão 3: Foco e directriz

Cónica

Considere-se uma recta d e um ponto F exterior à recta.

Ao conjunto dos pontos P do plano em que a razão entre a distância ao ponto F e a distância à recta d é constante chamamos cónica.

O ponto F chama-se foco a recta d chama-se directriz. e a tal razão constante chama-se excentricidade. Com esta definição faz sentido que a excentricidade seja estritamente maior do que zero.
  • Se a excentricidade for inferior a 1 a cónica designa-se elipse.
  • Se a excentricidade for igual a 1 a cónica designa-se parábola.(Coincide com a versão 2)
  • Se a excentricidade for superior a 1 a cónica designa-se hipérbole.

Estes focos coincidem com os da versão 2.
Estas três definições são "quase equivalentes" (permitam-me o abuso de linguagem).
Não é verdade que as 3 sejam equivalentes sem proceder a alguns ajustes.
As versões 1 e 2 permitem enquadrar a circunferência como uma elipse. A versão 3 precisa de algumas afinações para isso acontecer. A equivalência entre as versões 1 e 2 pode ser provada recorrendo às esferas de Dandelin . A primeira vez que a vi foi no livro Calculus vol I de Tom M. Apostol. (Sem querer ser mau, tenha em conta que o livro já tem alguns anos, e sugiro a quem o quiser consultar, se tiver hipótese, que evite traduções... recorra ao original).
(Sugiro, sem recorrer a tecnologias, a quem estiver interessado no próximo post)
PS:
  • Chamo à atenção que eu, propositadamente, nos exercícios pus soluções sem resoluções. Não é suposto usar 'equações reduzidas' de hiperboles nem de elipses nem 'reduções aos eixos principais', nem estudo algébrico de formas quadráticas... isso fica para textos futuros. Permito o uso de matrizes rotação (mas não obrigo). Para além de coisas elementares (distâncias euclidianas, quadrados de binómios, principio de equivalência de equações)...também podem (mas não precisam de) usar a fórmula da "distância de um ponto a uma recta" se souberem, se não souberem e tiverem curiosidade usem este botão:
    Não é para usar ferramentas 'não elementares', e eu tenho noção que com esta limitação, as resoluções podem ser bem chatas.
    Usem a imaginação.
    Já agora, as IAs a que eu recorri disparataram, por isso tenho mesmo curiosidade em saber se alguém chega a resoluções correctas. [Elas existem e não são únicas!]
  • CarlosPaulices no século XXI:Descodificando um programa de um caderno com 30 anos - Parte I
  • CarlosPaulices no século XXI: Tempo
  • A applet geogebra foi inicialmente escrita para o post Cónicas: uma definição excêntrica, do blog Carlos Paulices no século XXI, e foi adicionada ao texto no dia 1 de Abril de 2025
  • Applet Geogebra da versão 3 em https://www.geogebra.org/m/vk8wha34

12/03/2025

Um problema de geometria elementar (II) : A altura de um cone


Enquanto esperam os textos sobre cónicas, tomem um exercício com cones.

Este tamém veio do facebook, mas não consigo descobrir a fonte original (se alguém souber que me envie)


Temos um cone. O volume azul da primeira figura é igual ao azul da segunda, e as duas representam o mesmo cone. Qual é a altura do cone?

10/02/2025

Comprimentos de curvas

 Suponhamos que temos uma curva, em Rn parametrizada pela função γ:IRRn

Rigorosamente, gosto de chamar a estas curvas linhas parametrizadas mas percebi que cada um chama o que lhe apetecer.
Se I for um intervalo limitado e fechado [a,b], chamamos à curva caminho e o comprimento do caminho é dado por

. L(γ)=baγ(t)dt
Eu aprendi isto na licenciatura,mas isto encontra-se em vários livros de análise e cálculo em Rn (Com demonstrações correctas).
Por exemplo, a circunferência de centro (a,b) e raio r>0 pode ser parametrizada por γ(t)=(a+rcost,b+rsent),t[0,2π]
e o comprimento da circunferência (ou se preferirem, o perímetro da circunferência) é dado por: L(γ)=2π0γ(t)dt=2π0(rsent,rcost)dt=2π0(rsent)2+(rcost)2dt=2π0r2(sent)2+r2(cost)2dt=2π0r2dt=2π0rdt=2πr
É óbvio que o centro não poderia interferir no perímetro da circunferência, e dada a definição história de π, este exercício é bem estúpido. Mas pronto, é uma verificação, e vou repetir a estupidez mais uma vez neste post.
O gráfico de uma função f contínua no intervalo [a,b] é um caminho que pode ser parametrizado pela parametrização canónica:
γ(t)=(t,f(t)),t[a,b]
e o seu comprimento é, naturalmente L(γ)=baγ(t)dt=ba(1,f(t))dt=ba1+(f(t))2dt
Fórmula que já usei aqui neste blog, no post P, o primo do π
(é por causa desse texto, que estou a escrever este... é que eu tenciono usar isto, para, bem, depois se tiverem curiosidade, virão cá ver)
Uma curva em coordenadas polares, r=ρ(θ),θ[θ1,θ2] pode ser parametrizada por γ(t)=(ρ(t)cost,ρ(t)sent),t[θ1,θ2]
E o seu comprimento é então L(γ)=θ2θ1γ(t)dt=θ2θ1(ρ(t)costρ(t)sent,ρ(t)sent+ρ(t)cost)dt=θ2θ1(ρ(t)costρ(t)sent)2+(ρ(t)sent+ρ(t)cost)2dt=θ2θ1(ρ(t)cost)22ρ(t)ρ(t)costsent+(ρ(t)sent)2+(ρ(t)sent)2+2ρ(t)ρ(t)costsent+(ρ(t)cost)2dt=θ2θ1(ρ(t)cost)2+(ρ(t)sent)2+(ρ(t)sent)2+(ρ(t)cost)2dt=θ2θ1(ρ(t))2+(ρ(t))2dt
(Eu gosto do aspecto desta fórmula...)
Vamos a mais um exempo "estúpido"? Uma circunferência de raio R (R>0), e centro na origem, tem como equação,em coordenadas polares, r=R, ou seja ρ(θ)=R com θ[0,2π] então, (risos) L(γ)=2π0(ρ(t))2+(ρ(t))2dt=2π0R2+02=2πR
Daqui a uns tempos uso isto para coisas mais engraçadas.